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O compromisso da CNSEG com a responsabilidade histórica

22/07/2021

Documento emitido em 16 de março de 1972 pela Yorkshire, seguradora responsável pela indenização do condomínio do Edifício Andraus, com a lista das empresas instaladas, das seguradoras responsáveis pelas indenizações e a estimativa dos prejuízos

 

Há 70 anos a Confederação Nacional de Seguros – CNseg é testemunha ocular da evolução do mercado segurador brasileiro e partícipe de momentos icônicos da sua história. As memórias, a trajetória e o legado da Confederação foram reunidos no Centro de Documentação e Memória do Mercado Segurador – CEDOM, demandado pelo modelo de governança corporativa adotado pela CNseg, em 2011, na gestão do então presidente Jorge Hilário Gouvêa Vieira, teve seu processo de criação iniciado durante o mandato de Marco Antonio Rossi, no ano de 2014.

O Centro de Documentação e Memória do Mercado Segurador nasceu com a missão de ser um centro de referência sobre a história do setor e um importante canal de aproximação entre o mercado de seguros e a sociedade, e desde a sua criação vem desenvolvendo importantes ações que materializam o compromisso da CNseg com a sua responsabilidade histórica. Conceito que, segundo Paulo Nassar, presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje) “[…] leva em conta as responsabilidades comercial, legal, ambiental, cultural, social e política num contexto sistêmico, relacionado às atividades humanas. Para a empresa responder à sociedade com legitimidade, é preciso que seja vista tendo por base uma linha do tempo, na qual se possa fazer uma análise atitudinal e se perceba a energia dinâmica que transita entre passado futuro, que permite entender o presente e inferir quais impactos serão gerados” (NASSAR, 2012, p.368).

Foi nesse sentido que Solange Beatriz Mendes, em entrevista concedida ao CEDOM, em 06 de julho de 2016, destacou o importante papel do CEDOM — um dos projetos voltados ao mercado segurador desenvolvido quando esteve à frente da Diretoria Executiva: “O Centro de Documentação e Memória é um resgate da história do setor de seguros, um setor importante, um setor que merece ter sua história registrada [..]” (MENDES, 2016).

O projeto de implantação do CEDOM teve início em agosto de 2014, com o tratamento de acervos de valor histórico captados pela Biblioteca Luiz Mendonça. Este trabalho contou com a expertise de consultoria técnica e com a participação de membros da equipe interna de comunicação.

Entre os documentos que receberam tratamento técnico especializado destacam-se as coleções Revista de Seguros e Revista do IRB, além de obras sobre aspectos históricos e jurídicos do seguro, documentos textuais, fotográficos, audiovisuais e peças tridimensionais que retratam a história institucional da CNseg. Em 2016, o CEDOM deu início ao trabalho de digitalização de acervos com o objetivo de perenizar e facilitar o acesso à memória do setor. Além de centenas de itens audiovisuais e fotográficos, o CEDOM digitalizou 376 edições da Revista de Seguros e mais de 400 artigos do ilustre jornalista Luiz Mendonça.

Paralelamente às atividades de tratamento e digitalização de acervos, o CEDOM deu início ao mapeamento e à captação de documentos nas Federações que compõem a CNseg, em arquivos da cidade do Rio de Janeiro, nas seguradoras, e em instituições representativas do setor. Mais de 15 instituições foram contatadas pela equipe do CEDOM, que esteve pessoalmente no Arquivo Nacional, na Biblioteca Nacional, na Associação Comercial do Rio de Janeiro, na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Arquivo Histórico do Itamaraty, no CPDOC da FGV e nas seguradoras SulAmérica, Bradesco Seguros, Mongeral e Prudential, tendo sido muito bem recebida por estas instituições.

Entre os documentos mapeados destacamos a Apólice da Companhia Mútua de Seguro de Vida dos Escravos, localizada na Biblioteca Nacional. Datado de 06 de agosto de 1860, o documento assegura a Antônio Pereira Borges o valor “em que foi estimado a preta Josefina de nação crioula” (COMPANHIA MÚTUA…, 1860). No Arquivo Nacional foram referenciados um curioso processo sobre a falsificação de apólices no início do século XX (1908-1909) e uma apólice de seguro de navio negreiro (1831-1838).

As apólices mapeadas refletem a mentalidade de uma época em que escravos eram “considerados mercadorias e tinham seguros contratados por seus proprietários por danos durante o transporte ou por morte natural nos engenhos”, afirma a CNseg (CNSEG, 13 de maio de 2019). O trabalho de recuperação de registros que retratam um período tão sombrio da história do Brasil é isento de saudosismos, e se atém à reconstituição da evolução de carteiras de seguros no país.

Outro registro que merece destaque é a apólice de vida do grande poeta e cronista brasileiro Carlos Drummond de Andrade, emitida pela Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais, em 27 de maio de 1931, quando o beneficiário contava com a tenra idade de 28 anos. Localizada no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, a apólice foi referenciada na base de dados do CEDOM e pode ser acessada mediante prévia autorização dos herdeiros de Drummond.

Além da evolução de carteiras de seguros, também compõem a linha de acervo do CEDOM: as contribuições do seguro para o desenvolvimento econômico e social do Brasil, sinistros que marcaram época e geraram pontos de inflexão na atividade seguradora, marcos regulatórios do setor, e estratégias inovadoras voltadas à difusão da cultura do seguro. Estes temas têm orientado não só a captação de acervos como também a produção dos conteúdos que são veiculados no Portal do CEDOM.

O lançamento do Portal do CEDOM, em 25 de julho de 2016, tornou público o trabalho integrado de pesquisa, mapeamento e captação de acervos, e produção de conteúdo, que vinha sendo desenvolvido desde 2014. O site também reúne entrevistas exclusivas com personalidades e profissionais do mercado segurador que testemunharam diferentes conjunturas e fatos relevantes da história contemporânea do seguro, e pode ser consultado através do endereço: cedom.cnseg.org.br.

No campo de contribuições do seguro para o desenvolvimento do país foram levantados registros sobre a participação do mercado segurador na construção de grandes obras de infraestrutura, como por exemplo, a construção de Brasília, que teve todos os riscos de vida e ramos elementares cobertos pela seguradora Equitativa. Além de enriquecer o acervo do CEDOM, os documentos levantados embasaram a escrita do destaque “O seguro conquista o coração do Brasil”, que integra a série “70 anos da CNseg” lançado neste ano.

Também foram referenciadas na base de dados do CEDOM fotografias e matérias de época sobre a participação do mercado segurador na construção da Ponte Rio-Niterói e da maior hidrelétrica do mundo – a Usina Hidrelétrica de Itaipu. O CEDOM recebeu ainda uma doação de valor inestimável do Sr. João Gilberto Possiede: a cópia da apólice de seguro garantia feita pela Bamerindus Companhia de Seguros ao Consórcio Itaipu Eletromecânico – CIEM, em 1978.

Após amplo trabalho de investigação, a equipe técnica do CEDOM também localizou a Escritura de Constituição da Fundação Getúlio Vargas no 17º Ofício de Notas da cidade do Rio de Janeiro. O documento que descreve a contribuição do setor para a criação da FGV foi digitalizado com o patrocínio da CNseg e colocado à disposição de pesquisadores de todo o Brasil através do banco de dados do CEDOM.

As pesquisas sobre a vertente de grandes sinistros revelam que se não fosse a solidez do mercado segurador muitos empreendimentos nacionais poderiam não ter sobrevivido às fortes intempéries. O acervo reúne registros do incêndio da fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, em 1970, além de comprovantes originais das indenizações pagas pelo incêndio do Edifício Andraus, ocorrido em 24 de fevereiro de 1972, no centro de São Paulo.

Os dois episódios tiveram ampla repercussão na imprensa. O incêndio da Volkswagen foi classificado pelo jornal Correio da Manhã como “um dos maiores incêndios já registrados na história de São Paulo” (INCÊNDIO…, 1970). Já a Revista Manchete afirmou que “jamais em toda a América do Sul um desastre causou tanto prejuízo” (O INCÊNDIO…,1971). Estas pesquisas foram consolidadas no destaque “Seguro: Proteção eficaz contra riscos que ameaçam empresas no Brasil”, que também integra a série “70 anos da CNseg”.

O acervo reúne ainda registros do primeiro contrato firmado entre a Petrobras e o mercado segurador brasileiro, após o primeiro blow out na plataforma Enchova em 1984. Na ocasião, a Petrobras admitiu que até aquele momento não havia contratado seguro para os seus empreendimentos. A revelação gerou grande repercussão no mercado de seguros, e o pronunciamento da Fenaseg no Boletim Informativo nº 777 ganhou as páginas de jornais de todo o Brasil:

Todo o patrimônio está sujeito a risco de perda, suscitando na administração empresarial dois tipos de opção: a transferência desse risco, através do seguro, a quem melhor possa absorvê-lo ou a adoção do autosseguro, que é bancar o risco, assumi-lo por conta própria. Entre as duas opções não há que hesitar, tal a racionalidade que está impregnada a escolha do seguro (JORNAL DO COMMERCIO, 24 de agosto de 1984).

Ao todo, foi segurado um patrimônio da ordem de 4,5 bilhões de dólares, compreendendo: 7 plataformas de produção, 49 plataformas de produção de médio porte e 12 sistemas flutuantes de produção. O risco foi assumido por todas as seguradoras que operavam no ramo, tendo como líder a Bamerindus Companhia de Seguros. O que excedeu a capacidade do mercado segurador brasileiro foi colocado no exterior pelo IRB.

Poucos meses após o início da vigência do contrato, a plataforma Enchova sofreu o segundo incidente e foi consumida pelo fogo. Graças à cobertura do seguro, a Petrobras recebeu uma indenização de mais de 300 milhões de dólares. “Bom para a Petrobras, que pagou menos para ter seu patrimônio garantido. Bom para o país, que economizou divisas”, afirmou o anúncio do Comitê de Divulgação Institucional do Seguro – Codiseg, veiculado no Jornal do Brasil em 31 de maio de 1988. O levantamento destes e de outros registros de marcos relevantes do setor são alvo de pesquisas constantes da equipe do CEDOM.

No campo da difusão da cultura do seguro, o CEDOM tem se voltado ao regaste de campanhas publicitárias que contribuíram para tornar o seguro mais conhecido da população. A inserção do seguro nas novelas Dancin’ Days e Vale Tudo, que foram ao ar pela Rede Globo em 1978 e 1988, respectivamente, foram rememoradas pelo destaque que marcou o aniversário da CNseg no mês de junho, intitulado “CNseg completa 70 anos”.

O texto também destaca as campanhas publicitárias da Fenaseg que foram prestigiadas com o Prêmio Colunistas – “Ser útil à Sociedade. O pensamento que une as empresas de seguro” (1979), “Incêndio” (1982), “São Pedro” (1983), “Escoceses” (1993), “Robauto” (1995) e “O que você tem, você mantém” (1997) – uma iniciativa da Associação Brasileira dos Colunistas de Marketing e Propaganda – Abracomp. O portal do CEDOM também conta com uma série de destaques que reconstituem a evolução do Marketing do seguro desde o século XIX, quando os anúncios eram divulgados no formato de classificados, passando pelo surgimento dos primeiros anúncios ilustrados, e chegando aos dias atuais, com campanhas publicitárias que superam sucessivos recordes de criatividade e bom humor.

Atualmente o acervo do Centro de Documentação reúne mais de 164 mil itens documentais e o investimento na digitalização do acervo tem rendido bons frutos. Durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19) a equipe técnica do CEDOM pôde dar continuidade aos trabalhos em curso de forma remota, com direito à ampliação do escopo de atividades. No começo do ano foram iniciadas pesquisas voltadas à criação da Galeria de Presidentes da CNseg e à estruturação de dossiês de personalidades do setor. A série de dossiês foi aberta com “A trajetória de Antonio Carlos de Almeida Braga”, uma homenagem ao grande Braguinha, que faleceu em 12 de janeiro, deixando um enorme legado de contribuições ao mercado segurador.

O CEDOM também acaba de iniciar uma nova série de depoimentos que tem como fio condutor a trajetória dos depoentes selecionados, o significado dos 70 anos da CNseg, o impacto da pandemia no mercado de seguros e as perspectivas para o pós-pandemia.

Em entrevista recente concedida ao CEDOM o presidente da CNseg, Marcio Coriolano, reafirmou a importância de registrar os avanços, as potencialidades e até mesmo os fracassos e deficiências do setor para a consolidação do aprendizado civilizatório. Para ele, a promoção de maior incentivo à preservação da memória no país pode contribuir para que o Brasil alcance patamares ainda maiores de desenvolvimento. (CORIOLANO, 2021).